Rainhas do pelotão

O “empoderamento feminino” está em alta. As mulheres conquistam novas áreas como cargos no mercado de trabalho, na política e no esporte. No ciclismo não é diferente: o número de mulheres no pedal cresceu consideravelmente nos últimos anos em clubes, assessorias e em competições e isso resultou em produtos especiais para elas e melhores resultados em provas amadoras e de alto rendimento.

Mas mesmo nessa crescente de mulheres pedalando, a diferença ainda é grande entre o número de federados na Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC). Enquanto eles correspondem a 7500, elas são somente 700. Um dos fatores que pode explicar isso é que algumas mulheres ainda têm medo do ciclismo. Muitas sentem-se inseguras, principalmente ao pedalarem em estradas ou ruas muito movimentadas. Treinar em grupo, em clubes, assessorias ou até mesmo entre amigos é uma solução para ficar mais à vontade no pedal. A situação fica ainda melhor em clubes de ciclismo que oferecem motos batedores, líderes de pelotão e socorristas durante os treinos.

Ciclista no Soul Race Tour

Comprar bikes e acessórios também pode ser problemático pois nem sempre são especialmente projetados para elas (jerseys, dos bretelles e até mesmo o selim). A atleta Soul Race Paula Campos teve dificuldades no início e afirmou que “não se adaptava às blusas que não são acinturadas e aos bretelles que possuem o forro diferenciado do masculino.”  Atualmente as marcas desse ramo já oferecem algumas opções para o público feminino. “Eu acredito que a indústria está acordando para isso e começando a fazer coisas cada vez mais voltadas para a mulher”, confirma Aline Carvalho, ciclista e embaixadora Soul Race.

Mas os impasses não impedem que as mulheres sigam numa jornada de sucesso no pedal. Entre os motivos que atraem cada vez mais mulheres para a rotina do ciclismo está a estética e a saúde. Melhorias na parte cardiovascular e no ganho de força são alguns dos benefícios do ciclismo que são válidos tanto para praticantes de longa data quanto para iniciantes. “A chance de ter lesões na bike é menor que na corrida, por exemplo, para quem está descondicionado ou fora do peso” garante a Dra. Chris Prado do Laboratório de Performance Humana.

Aline, Paula e Bia – ciclistas Soul Race

Diferente do que muitos dizem, o ciclismo não traz problemas ou complicações para a saúde da mulher. A diferença em relação aos homens é constante atenção no ciclo menstrual.  “Se conhecer para saber qual treino fazer em determinada fase do ciclo é fundamental.” afirma Chris Prado. Segundo a médica especializada em esporte, um bom rendimento no pedal vem de um treino sob medida que depende muito do feedback da atleta sobre o que está sendo passado pelo treinador além de manter os exames, a hidratação e a alimentação em dia.

O bom desempenho nas bikes vem se tornando uma marca registrada entre as mulheres. A prova disso é o aumento do número de atletas e categorias femininas nas provas amadoras e nos grupos de ciclismo nos últimos anos. “Quando comecei, o número de mulheres era muito pequeno, mas hoje em dia já tem grupos e pelotões só de mulheres”, garante Aline Carvalho.

Aline Carvalho – ciclista, embaixadora e líder de pelotão SR

As conquistas femininas são visíveis também no alto rendimento. Um grande exemplo para as ciclistas brasileiras é Flávia Oliveira que nos Jogos Olímpicos Rio 2016 conquistou o melhor resultado de ciclismo da história do Brasil. Flávia terminou a prova em sétimo lugar, apenas 20 segundos atrás da campeã. Uma classificação histórica e que prova que as mulheres brasileiras estão crescendo no pedal e têm potencial para crescer muito mais.

Segurança no pedal

O ciclismo é um esporte que há alguns anos só cresce no Brasil. Novos clubes, assessorias, equipes e competições aparecem com frequência ajudando na propagação do esporte. E junto desse crescimento, vem à preocupação com a segurança dos atletas. Por ser um esporte de alto risco, os índices de acidentes ainda são altos, então redobrar a atenção no quesito segurança nunca é demais.

Um dos maiores perigos do esporte é dividir o espaço de treino com automóveis, principalmente no ciclismo de estrada. “Temos que ficar atentos. Nunca se sabe qual vai ser a reação de um motorista”, é o que garante Luiz Fortunato Junior, professor de Educação Física e Técnico em ciclismo. Para evitar acidentes, o ideal é procurar treinar em horários fora do fluxo intenso, além de sempre estar atento ao trânsito e sinalizar quando for necessário.

Falando em sinalização, essa é uma das medidas indispensáveis para ficar seguro na hora do pedal. Fazer sinais com as mãos, por exemplo, pode diminuir o risco de acidentes. Quando o ciclista indica para o motorista o que vai fazer, ele pode tomar a decisão mais acertada para não prejudicar o atleta. “Da mesma forma que o motorista dá a seta, você tem que indicar a direção que você vai”, aconselha Fortunato.

Outro fator importante é a estrutura dos treinos. De acordo com o Diretor Executivo e Operacional da Soul Race, André Gracindo: “Ter motos batedores treinados, motos socorristas e líderes experientes são ações que visam sempre à segurança”. Essa logística garante que o atleta mantenha a concentração e ajuda quando acontecem imprevistos. “A estrutura deve organizar e criar um ambiente mais seguro e preparado para minimizar os riscos assumidos frequentemente pelos ciclistas”, diz André.

Lia Borges, atleta do Soul Race Cycling Club, concorda com esse ponto:“Infelizmente o esporte é de risco, e acidentes podem acontecer. Mas com certeza, treinar com estrutura, nos deixa mais seguros e reduz o risco de acidentes”.

Mais uma alternativa para a segurança do ciclista é pedalar em grupo. Além de dar aquela motivação extra, diminui as chances de acidente.  “O ciclismo é um esporte, a meu ver, que se torna mais seguro em grupo, lógico que o pelotão tem que estar alinhado”, garante Lia.

 

Além dessas ações, se manter atento é fundamental. Distrações como usar fone de ouvido ou conversar durante o pedal podem levar a situações perigosas. Para evitar este tipo de imprevisto, é necessário estar 100% ligado.

Mais um ponto importante é estar sempre com equipamento de segurança. Usar capacete, luvas, roupas específicas e sapatilhas com tacos novos é fundamental. Estar com jersey de cores vibrantes e usar faróis nas bikes, por exemplo, dão visibilidade ao ciclista, prevenindo problemas. E em casos de acidente, alguns acessórios, como o capacete, ajudam a absorver o impacto.

Para finalizar, mas nem de longe o menos importante, vem à manutenção das bikes. Cuidar da magrela é fundamental para manter o treino seguro. A bike bem ajustada, revisada e regulada, diminui a quase zero o risco de um acidente mecânico durante o pedal”, é  que garante Daniel Kuschnir, da DK Bikes.


Fazer a manutenção correta da bike deve ser rotina do ciclista. Segundo Kuschnir, de 700 a 1000 km rodados deve-se fazer a revisão básica, isso se não houver chuva, lama ou qualquer outro imprevisto. Além disso, a cada 3000km deve ser feita uma revisão geral.

Atitudes e percepções como estas são fundamentais para que o atleta não corra, nem ofereça risco a ninguém. A segurança deve estar sempre em primeiro lugar para que o ciclista possa desfrutar de uma ótima experiência de pedal.